NO ÔNIBUS
Uma da tarde. Mais um dia de obrigações. Em plena primavera, quando as flores emprestam ao caos urbano um aspecto de paraíso, pairava no ar um calor infernal. Cheguei ao ponto de ônibus já paciente, a espera é sempre longa. Depois de meia hora, avistei o ônibus e já pensei em que lado sentaria. Detive-me um pouco, apoiei-me nas barras de ferro e as senti pegajosas, grudentas. Logo imaginei o nível das criaturas que passavam por ali. Por fim, escolhi a fileira de bancos da direita. Encostei-me na janela e rezei para ter escolhido o lado certo. Uma curva me separava da resposta. O ônibus dobrou e o sol começou a cobrir minha face. Errei mais uma vez, sempre erro.
O caminho do ônibus era um tanto peculiar, passava por uma parte isolada da cidade, por vilas pobres onde as plaquetas oferecendo serviços simplórios predominavam e, invariavelmente, continham um erro gramatical. Olhei para a fileira da esquerda, todos os lugares estavam ocupados, teria que ficar por ali mesmo e me contentar com o calor do sol. Comecei a suar, senti minhas costas molhadas e alguns pingos entravam no meu olho. Fiquei profundamente agoniado. A viagem até meu destino duraria uns cinqüenta minutos, por isso carregava fones de ouvido, livros e uma garrafa de água na mochila. Música e leitura, poucas coisas que me deixam feliz. O ônibus começou a lotar e, no banco à minha frente, sentou um casal com duas crianças pequenas. Uma delas ficou de pé, no colo da mãe, de frente para mim. Devia ter um ano e meio mais ou menos, era negra, tinha pouco cabelo e os olhos bem escuros. Começou a gritar incessantemente, choramingar. A mãe não fazia nada para tentar acalmá-la, o ônibus ficava mais cheio, eu suava demais e o vento que entrava pelas janelas era abafado. Coloquei os fones de ouvido para ver se esquecia de tudo ao meu redor. Não agüentei uma música, os sons me batiam e sentir qualquer coisa tocando meu corpo naquele momento me irritava. Nem cogitei em tentar o livro. Os ávidos por leitura sabem que é praticamente impossível ler no calor, ainda mais na situação em que me encontrava. As palavras ficam arrastadas e é preciso ler um parágrafo milhares de vezes para achar algum sentido. É um desconforto imenso. A água também não adiantaria, devia estar quente já. Lembrei uma conversa que tive com uma amiga:
“Como você quer que eu volte de ônibus da faculdade”, ela disse.
“Qual o problema”, respondi.
“Eu saio da faculdade à meia-noite, quer que eu vá só ao primeiro dia de aula.”
“Ah foda-se, se estiver com sorte, já morre logo.”
“Ai, que horror, pra que morrer?”
“Viver é sofrer.”
“Eu não sofro.”
“Sofre sim, todos sofrem.”
“Não mesmo, eu sou feliz.”
“Acha que é, mas inventamos desejos pra não dizer que sofremos.”
“Não, eu não sofro.”
“Então, tá.”
A lembrança da conversa me fez esquecer da situação por alguns segundos. Quando voltei à realidade, o ônibus estava parado. Não era sinaleira, não era parada, não pude identificar o motivo, não era nada. Inclinei-me um pouco para frente e, com as pontas dos dedos, descolei a camiseta das minhas costas. Olhei para as pessoas a minha volta. Elas pareciam conformadas. Estão acostumadas, pensei. De repente, senti pingos sobre meus braços. Não era de suor, e se a chuva aparecesse por ali seria tão irônico quanto é o mundo. A criança havia espirrado
Finalmente cheguei à última sinaleira. Novamente, uma curva era meu obstáculo. Somente quando o ônibus parou, notei que ela estava fechada. As cores me pareciam cinza, não conseguia ver suas posições. Todos os pontos eram o mesmo para mim. Levantei-me e apertei a campainha. Desci do ônibus. Não senti nenhum alívio. Dentro ou fora, eu estava no mesmo inferno. Só queria minha sala e meu ar-condicionado. Ou um lugar em que eu me sentisse seguro.
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