segunda-feira, 30 de junho de 2008

NO ÔNIBUS


Uma da tarde. Mais um dia de obrigações. Em plena primavera, quando as flores emprestam ao caos urbano um aspecto de paraíso, pairava no ar um calor infernal. Cheguei ao ponto de ônibus já paciente, a espera é sempre longa. Depois de meia hora, avistei o ônibus e já pensei em que lado sentaria. Detive-me um pouco, apoiei-me nas barras de ferro e as senti pegajosas, grudentas. Logo imaginei o nível das criaturas que passavam por ali. Por fim, escolhi a fileira de bancos da direita. Encostei-me na janela e rezei para ter escolhido o lado certo. Uma curva me separava da resposta. O ônibus dobrou e o sol começou a cobrir minha face. Errei mais uma vez, sempre erro.


O caminho do ônibus era um tanto peculiar, passava por uma parte isolada da cidade, por vilas pobres onde as plaquetas oferecendo serviços simplórios predominavam e, invariavelmente, continham um erro gramatical. Olhei para a fileira da esquerda, todos os lugares estavam ocupados, teria que ficar por ali mesmo e me contentar com o calor do sol. Comecei a suar, senti minhas costas molhadas e alguns pingos entravam no meu olho. Fiquei profundamente agoniado. A viagem até meu destino duraria uns cinqüenta minutos, por isso carregava fones de ouvido, livros e uma garrafa de água na mochila. Música e leitura, poucas coisas que me deixam feliz. O ônibus começou a lotar e, no banco à minha frente, sentou um casal com duas crianças pequenas. Uma delas ficou de pé, no colo da mãe, de frente para mim. Devia ter um ano e meio mais ou menos, era negra, tinha pouco cabelo e os olhos bem escuros. Começou a gritar incessantemente, choramingar. A mãe não fazia nada para tentar acalmá-la, o ônibus ficava mais cheio, eu suava demais e o vento que entrava pelas janelas era abafado. Coloquei os fones de ouvido para ver se esquecia de tudo ao meu redor. Não agüentei uma música, os sons me batiam e sentir qualquer coisa tocando meu corpo naquele momento me irritava. Nem cogitei em tentar o livro. Os ávidos por leitura sabem que é praticamente impossível ler no calor, ainda mais na situação em que me encontrava. As palavras ficam arrastadas e é preciso ler um parágrafo milhares de vezes para achar algum sentido. É um desconforto imenso. A água também não adiantaria, devia estar quente já. Lembrei uma conversa que tive com uma amiga:


“Como você quer que eu volte de ônibus da faculdade”, ela disse.


“Qual o problema”, respondi.


“Eu saio da faculdade à meia-noite, quer que eu vá só ao primeiro dia de aula.”


“Ah foda-se, se estiver com sorte, já morre logo.”


“Ai, que horror, pra que morrer?”


“Viver é sofrer.”


“Eu não sofro.”


“Sofre sim, todos sofrem.”


“Não mesmo, eu sou feliz.”


“Acha que é, mas inventamos desejos pra não dizer que sofremos.”


“Não, eu não sofro.”


“Então, tá.”


A lembrança da conversa me fez esquecer da situação por alguns segundos. Quando voltei à realidade, o ônibus estava parado. Não era sinaleira, não era parada, não pude identificar o motivo, não era nada. Inclinei-me um pouco para frente e, com as pontas dos dedos, descolei a camiseta das minhas costas. Olhei para as pessoas a minha volta. Elas pareciam conformadas. Estão acostumadas, pensei. De repente, senti pingos sobre meus braços. Não era de suor, e se a chuva aparecesse por ali seria tão irônico quanto é o mundo. A criança havia espirrado em mim. Fiquei com raiva. Seus pais continuavam imóveis. Olhei para o rosto da pequena, vi o ranho escorrendo pelo seu nariz, entrando pela boca. Tive vontade de socar a cara dela, dar uns bons tapas, chutá-la no chão se fosse preciso. Talvez se eles vissem sangue, sairiam desse estado de apatia, e o pavor voltaria a significar alguma coisa pra eles. E se eles revidassem, talvez eu até me sentisse feliz. Comecei a me perguntar por que existia aquele tipo de gente sem nenhum respeito, nenhum senso comum, nenhuma dignidade. Não podia entender por que alguns defendiam aqueles sujeitos, achavam-nos vítimas. Pessoas avessas ao trabalho e à civilização, um bando de vagabundos. São a escória do mundo. Porém, não saí do meu lugar. Esperei o calor levar os pingos do espirro e confraternizei com a inércia. O ônibus voltou a andar, mas parava em cada ponto, todos os sinais fechavam. Parei de me preocupar. Não dei atenção a mais nada. Estava amortecido, só me restava levar adiante. Como se faz com tudo na vida.


Finalmente cheguei à última sinaleira. Novamente, uma curva era meu obstáculo. Somente quando o ônibus parou, notei que ela estava fechada. As cores me pareciam cinza, não conseguia ver suas posições. Todos os pontos eram o mesmo para mim. Levantei-me e apertei a campainha. Desci do ônibus. Não senti nenhum alívio. Dentro ou fora, eu estava no mesmo inferno. Só queria minha sala e meu ar-condicionado. Ou um lugar em que eu me sentisse seguro.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

DRICA


O sol batia a pino e refletia no vidro de um flat com vista para o mar. Iluminava um corpo que se espalhava por uma cama redonda. Era o corpo de Drica. Drica se levantou, ergueu os braços e olhou pela janela. Viu a orla. Foi até o criado mudo ao lado da cama e cheirou a linha de cocaína que repousava sobre o prato. Estava pronta para mais um dia. Cafeína, coca-cola, televisão em cores, sibutramina, endorfina, adrenalina, morfina, serotonina, monóxido de carbono, tetraidrocanabinol, dietilamida do acido lisérgico, silicone, botox, cloreto de sódio, flúor, nicotina, álcool e todas as drogas do mundo de que o homem precisa para sobreviver. Ela não precisava de nada disso, apenas de suas linhas diárias. Era o seu sustento.


Drica vestiu um biquíni branco pequeno e uma saída de banho transparente por cima. Abriu a porta de seu apartamento e esperou pelo elevador. Estava calma. Entrou no elevador. Não se preocupou em olhar no espelho para verificar se algum pó branco restava nas suas narinas. Sabia que não havia. Tinha prática. Saiu do edifício, foi até a areia e começou a caminhar. A praia estava praticamente deserta e o sol escaldante contrariava a solidão do mar. Era segunda-feira, disso ela tinha certeza. Devem estar todos enfurnados em seus escritórios, Drica pensou, em suas empresas, seus comércios, seus trabalhos inertes e monótonos. Cada um perdido em seu ideal, preso à hipocrisia contida em toda gravata, todo salto alto, em todo uniforme. Alguns felizes com o descanso do final de semana; outros tristes com o seu fim e a volta das obrigações. Drica achou sem sentido tudo aquilo, todas as vontades reprimidas sem porquê.


Caminhou mais um pouco e o pensamento se dissipou. Deixou o sol queimar sua pele. Ainda estava calma. Foi até às pedras e encontrou três garotos sentados fumando um baseado. Sem trocar palavras, um deles estendeu o cigarro a ela. Negou. Não precisava daquilo. Convidou os três rapazes para irem até seu apartamento. São rapazes bonitos, ajeitados pelo menos, devem estar pelos vinte e poucos anos, Drica ponderou. Não havia perigo. Mas se houvesse também, sem problemas. Só se vive uma vez, Drica pensava assim. Os três se entreolharam surpresos e acenaram um “sim” com a cabeça.


“Onde você mora”, um deles perguntou.


Ela apontou o dedo para o alto, para o seu flat. Eles sorriram, expressando dúvida.


“Me sigam”, ela disse.


Drica caminhou na frente e os três garotos seguiram-na. A visão do corpo de Drica era uma aposta. Ela tinha um corpo esguio, costas definidas, seu cabelo era curto e de um loiro reluzente. Algumas tatuagens cobriam seus braços. Não era muito acinturada, mas tinha uma bunda firme, amostra de seus trajes transparentes e de seu ínfimo biquíni. Enfim, era uma aposta. Entraram no edifício e os garotos se entreolharam novamente, procurando uma razão. No elevador, um deles perguntou seu nome. Ela respondeu e perguntou de volta.


“Marcelo”.


“Lucas”.


“Rodrigo”.


Entraram no apartamento. A sala de estar era luxuosa, sem nenhum sofá, coberta de tapetes e almofadas, diversos livros de moda enfeitavam a mesa central e uma televisão de plasma imensa fechava o ambiente. Drica pediu para que ficassem à vontade e ofereceu bebidas. Tirou sua saída de banho e rumou para seu quarto, deixando-os atônitos. Marcelo a seguiu, enquanto Lucas e Rodrigo ficaram na sala enrolando mais baseados. Ligaram a tevê. Estava passando um filme em que no início a câmera focava a bunda de uma mulher enquanto ela desfilava por uma calçada. A bunda preenchia totalmente a tela e, a cada passo, suas faces pareciam atacar os olhos dos rapazes. Pensaram já ter vivido aquela cena.


No quarto, Marcelo se impressionou com o ambiente. A cama redonda, o prato de cocaína e a janela vidrada que envolvia o quarto e ia do chão até o teto, sem cortina alguma. Marcelo pensou que nunca conseguiria dormir num quarto daqueles. Gostava de escuridão total. Drica estava de frente para o vidro, olhando para o mar. Ainda de biquíni. Marcelo decidiu apostar. Abraçou o corpo de Drica e beijou sua nuca. Ela se entregou facilmente e logo estavam esparramados pela cama. Tocavam-se e sentiam-se detalhadamente, cada linha, cada cicatriz, cada definição muscular, cada maciez e cada dureza. Drica deitou Marcelo de costas, pegou um punhado de cocaína com a ponta dos dedos e alinhou sobre o peito dele. Cheirou tudo e lambeu os resíduos. Sua boca amorteceu e seus sentidos se perderam. Estavam no ápice.


“Lentement”, ela gemia.


Qualquer outro rapaz não entenderia o pedido de Drica e responderia aos gemidos com virilidade. Porém, Marcelo entendeu e avançou sutilmente. Drica sentiu um tesão cruel. Não sabia mais o que fazer para saciá-lo. Queria, de alguma forma, misturar-se com o desconhecido, penetrar-lhe as carnes furiosamente. Ser engolida por inteiro. Pensava, mas não raciocinava.


Dizem que quando gozamos nosso corpo libera uma substância que nos deixa leve, em estado de êxtase, com as pernas bambas. Drica não sentiu isso. Marcelo adormeceu. Ela foi até o criado mudo e aspirou mais uma linha. Adormeceu também.


Quando despertou, estava sozinha na cama. As estrelas iluminavam-na e a lua se escondia. Levantou-se, totalmente nua. Foi até a sala. Estava vazia, os rapazes já tinham ido embora. Tudo estava no lugar. Desde pequena Drica tem um relógio de pulso que fica sobre o criado mudo e dispara o alarme, infalivelmente, à meia-noite. Ouviu o sinal dele ao longe. Era um novo dia.

terça-feira, 17 de junho de 2008

MIM


leve bocado de mim
olhado de mim
testado por mim
e usado por mim


leva encorpado de mim
e encouraçado de mim
leve embriagado de mim
e apertado também


leva além, leva leve levado de mim
sonhado de mim
leva acordado também
e cadeado por mim


leva triturado de mim
enrolado de mim
sedado por mim
leve chapado também


leva velado, levado, lavado por mim
vela rezado com mim
e sagrado também
leva um mimo de mim


leva aquém, estragado por mim
e odiado por mim
leve amado em mim
e adiado também
leve assim e assado


leve pesado, leve leve de mim
leva em mim.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

POESIA CORPORAL


É bom amar e ser amado
Esquecer o passado
Ver os erros perdoados
Na sinfonia confusa dos nossos lábios.


Vai lá, tua vez agora, quero ver o que vai sair.

Hmm. não sei por que tu insiste nessa guerrinha de poemetos fajutos, ainda por cima com esse ar desafiador, sabendo que no final tu vai se sair melhor ou pelo menos achar isso.

Não leve as coisas pra esse lado, amor. é sem compromisso, sem perde nem ganha.

Aham, sei. tá bem. lá vai.


É bom sentir sem ter sentido
Esquecer aqueles anjos caídos
Ver os erros cometidos
Na confusão sinfônica dos sábios.


Ah, não. Assim não vale.

Por que não?

Porque tu usou a forma do meu poema e ainda por cima fazendo um jogo de palavras.

Ah meu, amor, saiba que plágios modificados são mais originais que cópias disfarçadas.

Daonde tu tirou essa frase?

Tirei da minha cabeça, ué. por que a pergunta?

Sei lá, ela me pareceu tão bem-feita, como se tu tivesse formulado há tempos e só agora teve a oportunidade de solta-la no ar.

Tu sempre duvida da minha inteligência e da minha capacidade de pensamento rápido, além do mais, quem vive inventando frases feitas é tu, e o pior é que tu se dá bem com elas.

Pois é, eu sei. mas vamos continuar, minha vez. lá vai.


Se o tempo nos deforma por ventura
Nas tuas costas farei uma pintura
De beijos e de abraços
Só para o tempo passar e moldar o nosso amor.


Hmm, adorei essa, mas não quero mais brincar disso.

Vamos fazer o quê? falar de filosofia?

Não, menos ainda. sempre quando falamos de filosofia nós discutimos, hoje eu não quero discutir.

Então vamos fazer o quê?

Vem cá, amor. deita aqui do meu lado. vamos fazer poesia com os nossos corpos.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

POR DOIS


As curvas nas quais importantes amigos perdemos
Levam-nos às retas em que outros ainda mais significantes encontramos.


Mas as recordações ficam tatuadas em nossa memória
E as torturas mentais nos ajudam a continuar.


Mesmo com as fugas do olhar
E com os sorrisos a falsear as rotas infinitas do destino.


Sei que essas lembranças te incomodam, porém
Não se torne disso um refém.


Pois se nossas vozes deixarem de ecoar
Onde você estiver eu irei estar.


Por isso, desfrute do amor que te resta
Eu serei o dono da festa.


Levarei adiante o nosso sonho
Apenas complete aquele ao qual um dia pertenci.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

AFÃ

Alguém com vontade de comer uma coisa que não existe.
Alguém com vontade de ouvir uma música nunca composta.
Alguém com vontade de ler um poema inacabado.
Alguém com vontade de ver um filme sem roteiro.
Alguém com vontade de um jogo sem regras.
Alguém com vontade de olhos sem púpilas.
Alguém com vontade de um clima ameno.
Alguém com vontade de encher os pulmões e gritar bem alto "olá".
Enfim, alguém sem propósitos, sem verdades, sem vontades.