DRICA
O sol batia a pino e refletia no vidro de um flat com vista para o mar. Iluminava um corpo que se espalhava por uma cama redonda. Era o corpo de Drica. Drica se levantou, ergueu os braços e olhou pela janela. Viu a orla. Foi até o criado mudo ao lado da cama e cheirou a linha de cocaína que repousava sobre o prato. Estava pronta para mais um dia. Cafeína, coca-cola, televisão em cores, sibutramina, endorfina, adrenalina, morfina, serotonina, monóxido de carbono, tetraidrocanabinol, dietilamida do acido lisérgico, silicone, botox, cloreto de sódio, flúor, nicotina, álcool e todas as drogas do mundo de que o homem precisa para sobreviver. Ela não precisava de nada disso, apenas de suas linhas diárias. Era o seu sustento.
Drica vestiu um biquíni branco pequeno e uma saída de banho transparente por cima. Abriu a porta de seu apartamento e esperou pelo elevador. Estava calma. Entrou no elevador. Não se preocupou em olhar no espelho para verificar se algum pó branco restava nas suas narinas. Sabia que não havia. Tinha prática. Saiu do edifício, foi até a areia e começou a caminhar. A praia estava praticamente deserta e o sol escaldante contrariava a solidão do mar. Era segunda-feira, disso ela tinha certeza. Devem estar todos enfurnados em seus escritórios, Drica pensou, em suas empresas, seus comércios, seus trabalhos inertes e monótonos. Cada um perdido em seu ideal, preso à hipocrisia contida em toda gravata, todo salto alto, em todo uniforme. Alguns felizes com o descanso do final de semana; outros tristes com o seu fim e a volta das obrigações. Drica achou sem sentido tudo aquilo, todas as vontades reprimidas sem porquê.
Caminhou mais um pouco e o pensamento se dissipou. Deixou o sol queimar sua pele. Ainda estava calma. Foi até às pedras e encontrou três garotos sentados fumando um baseado. Sem trocar palavras, um deles estendeu o cigarro a ela. Negou. Não precisava daquilo. Convidou os três rapazes para irem até seu apartamento. São rapazes bonitos, ajeitados pelo menos, devem estar pelos vinte e poucos anos, Drica ponderou. Não havia perigo. Mas se houvesse também, sem problemas. Só se vive uma vez, Drica pensava assim. Os três se entreolharam surpresos e acenaram um “sim” com a cabeça.
“Onde você mora”, um deles perguntou.
Ela apontou o dedo para o alto, para o seu flat. Eles sorriram, expressando dúvida.
“Me sigam”, ela disse.
Drica caminhou na frente e os três garotos seguiram-na. A visão do corpo de Drica era uma aposta. Ela tinha um corpo esguio, costas definidas, seu cabelo era curto e de um loiro reluzente. Algumas tatuagens cobriam seus braços. Não era muito acinturada, mas tinha uma bunda firme, amostra de seus trajes transparentes e de seu ínfimo biquíni. Enfim, era uma aposta. Entraram no edifício e os garotos se entreolharam novamente, procurando uma razão. No elevador, um deles perguntou seu nome. Ela respondeu e perguntou de volta.
“Marcelo”.
“Lucas”.
“Rodrigo”.
Entraram no apartamento. A sala de estar era luxuosa, sem nenhum sofá, coberta de tapetes e almofadas, diversos livros de moda enfeitavam a mesa central e uma televisão de plasma imensa fechava o ambiente. Drica pediu para que ficassem à vontade e ofereceu bebidas. Tirou sua saída de banho e rumou para seu quarto, deixando-os atônitos. Marcelo a seguiu, enquanto Lucas e Rodrigo ficaram na sala enrolando mais baseados. Ligaram a tevê. Estava passando um filme em que no início a câmera focava a bunda de uma mulher enquanto ela desfilava por uma calçada. A bunda preenchia totalmente a tela e, a cada passo, suas faces pareciam atacar os olhos dos rapazes. Pensaram já ter vivido aquela cena.
No quarto, Marcelo se impressionou com o ambiente. A cama redonda, o prato de cocaína e a janela vidrada que envolvia o quarto e ia do chão até o teto, sem cortina alguma. Marcelo pensou que nunca conseguiria dormir num quarto daqueles. Gostava de escuridão total. Drica estava de frente para o vidro, olhando para o mar. Ainda de biquíni. Marcelo decidiu apostar. Abraçou o corpo de Drica e beijou sua nuca. Ela se entregou facilmente e logo estavam esparramados pela cama. Tocavam-se e sentiam-se detalhadamente, cada linha, cada cicatriz, cada definição muscular, cada maciez e cada dureza. Drica deitou Marcelo de costas, pegou um punhado de cocaína com a ponta dos dedos e alinhou sobre o peito dele. Cheirou tudo e lambeu os resíduos. Sua boca amorteceu e seus sentidos se perderam. Estavam no ápice.
“Lentement”, ela gemia.
Qualquer outro rapaz não entenderia o pedido de Drica e responderia aos gemidos com virilidade. Porém, Marcelo entendeu e avançou sutilmente. Drica sentiu um tesão cruel. Não sabia mais o que fazer para saciá-lo. Queria, de alguma forma, misturar-se com o desconhecido, penetrar-lhe as carnes furiosamente. Ser engolida por inteiro. Pensava, mas não raciocinava.
Dizem que quando gozamos nosso corpo libera uma substância que nos deixa leve, em estado de êxtase, com as pernas bambas. Drica não sentiu isso. Marcelo adormeceu. Ela foi até o criado mudo e aspirou mais uma linha. Adormeceu também.
Quando despertou, estava sozinha na cama. As estrelas iluminavam-na e a lua se escondia. Levantou-se, totalmente nua. Foi até a sala. Estava vazia, os rapazes já tinham ido embora. Tudo estava no lugar. Desde pequena Drica tem um relógio de pulso que fica sobre o criado mudo e dispara o alarme, infalivelmente, à meia-noite. Ouviu o sinal dele ao longe. Era um novo dia.
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