sábado, 27 de outubro de 2007

DILEMA

Tento delinear um poema sem palavras difíceis
Mas meu cérebro abre o dicionário
Então eu mergulho em antiquários

Se for fácil eu titubeio
Troco o simples pelo notório
O notável pelo simplório

Chego rapidamente ao rebuscado
Imponho à gramática obstáculos
à cada palavra concedo oráculos

Sou herético e hermético
Perplexo, convexo, disléxico
Nada na vida há nexo
Além do meu complexo.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

CARTA DO AMOR ETERNO

É incrível ver como aquela menina meiga que um dia tomei como minha princesa transformou-se em uma bela mulher. E isso não só pela perfeição dos contornos do teu rosto ou pelo brilho do teu olhar, mas por qualidades e defeitos que continuam a me encantar.
Escrever-te apenas palavras belas seria superficial, pois dessa forma escondo a dor de não possuir tua atenção. Pensando bem, assim é melhor. Seria completo demais nos aproximarmos totalmente agora. Vivemos épocas iguais, mas situações diferentes. É tempo de amadurecer e de afirmar-se também.
Simultaneamente, descobrimos facetas diferentes do nosso ser e confirmamos como queremos levar a vida e formar nossa imagem. Tu ainda vives conflituosamente todas as confusões de um amor, enquanto eu apago as reminiscências de uma vida a dois. Mas como teu primeiro beijo esteve fadado aos meus lábios o teu último também está. Posso eu estar em profundo devaneio? Pode isto ser a fantasia de um momento? Talvez. Mesmo assim, levarei adiante, somente por saber que está minha incerteza fará tu esquecer quem te aflige e alegrará o teu sorriso. Tenho somente um consolo: se choras tristeza não é por minha causa. As lágrimas guardadas para mim são apenas as de felicidade. Afinal, já choramos sofrimento demais, e espíritos irônicos como os nossos não podem fazer nada senão chorar de tanto rir.
Quais armas posso usar contra o amor que sentes por outro rapaz? Não forçarei uma conquista, porque não sei ao certo se estou disposto a entregar-me a um sentimento morno, em que as faíscas de uma colorida chama estão sempre dispostas a fluir. Somente algumas horas ao lado da tua felicidade bastam para equilibrar a natural tristeza do meu ser com a possível alegria de viver.
Não sei se o tempo irá curar, mas irá, com certeza, apagar os desenhos da tua imaginação e do teu coração. Meu barco ainda navega, na esperança de te encontrar sorridente no cais...

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

DEZOITO ANOS

Aos dezoito anos, via-me no desfecho de um concerto,
a face deformada e o futuro consumado.
A rotina era o meu presente,
Ela me buscava em meus pensamentos, trazia-me ao mundo monótono
Afastando meu corpo de minhas ações.

Quando rompi com tal fardo, procurei quebrar minhas certezas.
Reconstitui meu rosto e apaguei o futuro vivido

Agora levo o barco sozinho, por vezes, carrego um ou outro tripulante, deixando-o sempre em terras firmes.
Tais viajantes oferendam-me presentes, os quais aceito de bom grado.
São bebidas variadas e maços de cigarro.
Apenas isto me sustenta enquanto sigo cambaleante nas ondas desse mar.

Meu rumo é certo, minha fé inconstante.
Não que eu seja totalmente cético, mas os olhares que me penetram não inspiram confiança.
E o abraço vazio do teu corpo imprime vontade ao meu remar infindável
Ao menos se minha memória fosse palpável
Conseguiria identificar o cheiro espalhado pela brisa
Quiça este seja o perfume das tuas flores
É para lá que eu vou!